14 de julho de 2019 – terceira aula de Técnicas Complementares do Trabalho Reichiano

Ao iniciar a aula, o Pedro anunciou que iríamos trabalhar com uma técnica da Biodinâmica, que atualmente possui um desdobramento da Psicorgânica, criada por Peter Boysen, filho da Gerda Boysen, criadora da Biodinâmica. Para isso, ele fez uma introdução contextualizando a Biodinâmica a partir de algumas informações que detinha e de trechos do livro “Entre a Psiquê e o Soma – introdução à psicologia biodinâmica” de Gerda Boyesen.
Reich chega à Noruega, aonde Gerda Boyesen vai se formar, em 1964. Após uma intervenção de Gerda em uma conferência de Ola Raknes (em uma época em que as mulheres não falavam em público), aonde criticou a fala de um estudante de direito que defendia a educação tradicional, chamou a atenção de Ola Raknes e foi convidado por ela para a formação. Deu alguns detalhes que Gerda passa sobre seu processo terapêutico no livro. Ela trabalha no instituto Bülow-Hansen, de fisioterapia, e através do cruzamento dessas referências vai criando e construindo a sua teoria e método terapêutico. Seu trabalho se relaciona com a peristalse e o que chama de “pontos-chave”, que são pontos em que, ao massagear uma pessoa, haverá aumento da atividade peristáltica – esses pontos variam entre os indivíduos, não há uma regra a ser seguida, e por isso no trabalho da massagem biodinâmica se utiliza o estetoscópio, que guiaria a terapeuta no trabalho de massagem através dos sons da peristalse. Gerda Boyesen classifica os seguintes tipos de som: trovão/rugido; riacho encantado; sons aquáticos; barulho de vento; barulhos mecânicos/metralhadora; porta rangendo.
Para fazer o trabalho, então, a primeira coisa que fizemos foi criar uma extensão para os estetoscópios – no meu, que ganhei de voinha de um kit velho de aparelho de pressão, eu utilizei um garrote fino com um tubo interno de alguma caneta para unir, e funcionou bem. Depois, posicionamos o ressonador do estetoscópio na região dos intestinos da pessoa, utilizando a barra da calça (ou cueca, calcinha, short…) para mantê-lo no lugar. A partir daí, vamos escutando e massageando o corpo da pessoa em diferentes regiões, sempre mantendo o foco no som; havendo alteração do som, a ideia é continuar a trabalhar naquela região com a massagem, até que o som que se ouve se torne constante ou então haja uma mudança nesse som. A ideia é que a massagem estimule uma suposta “peristalse emocional”, trabalhar uma couraça mais sutil do que a muscular, uma “couraça tissular” – um resíduo tóxico que se acumula nas células, segundo o Pedro.
Uma observação que foi comum em todas as pessoas foi como o barulho do tubo batendo e se movendo atrapalhava inicialmente o exercício; até que se encontrasse uma posição confortável para a massagem, a nossa movimentação produzia muito movimento e esse, por sua vez, muito barulho. Outra impressão comum foi como os estetoscópios mais baratos, como o meu, machucam os ouvidos com esse uso prolongado.
Em um momento rolou novamente a conversa atravessada pelo uso do termo e conceitos de física quântica, extrapolando (sempre) a ideia de entrelaçamento quântico para “quando você pensa numa pessoa e ela liga pra você”… Tentando ser intelectualmente honesto, claro que eu não tenho conhecimentos para dizer que não acontece uma troca de energia entre uma pessoa que pensa em alguém e a pessoa que é pensada – mas as pessoas que afirmam que isso acontece possuem muito menos indícios para fazê-lo, e o fazem tanto sem pudor algum, quanto caminham para o pseudo-cientificismo ao buscar se apropriar de conceitos científicos sem dar a mínima para o método. Conhecimento científico e metodologia científica são indissociáveis, um não faz sentido sem o outro; então usar conceitos científicos, obtidos a partir de uma metodologia, para apoiar hipóteses que passam ao largo dessa mesma metodologia, não é algo aceitável. É como se alguém dissesse, antes da descoberta do processo de evaporação, “pessoas podem virar uma nuvem de vapor”, aí anos depois o processo de fervura e evaporação é descoberto, aí aquela pessoa diz “Viram? Isso prova o que eu disse sobre pessoas poderem virar uma nuvem de vapor”. Toda a crise envolvendo as primeiras descobertas da mecânica quântica, segundo Fritjof Capra, envolve justamente o problema de as “Leis” que funcionam na mecânica clássica não se aplicarem na mecânica quântica, e vice-versa; ou seja, não é porque tudo é feito de átomos, que são feitos de partículas sub-atômicas, que o que se aplica a essas partículas se aplicam àquilo constituído por elas – nas relações novas variáveis se inserem e “as regras mudam”. De forma leviana, podemos afirmar que os átomos são majoritariamente espaço vazio; mas isso não nos permite dizer, mesmo de forma leviana, que as coisas se atravessam, simplesmente porque olhamos em volta e percebemos que isso não acontece. Então o entrelaçamento quântico, processo ainda em estudo e debate no meio científico, não pode ser usado para justificar transmissão de pensamento ou qualquer coisa que o valha – ao menos, não deveria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *