13 de julho de 2019 – segunda e terceira aulas de Vegetoterapia I

  O Pedro iniciou essa aula fazendo uma rápida recapitulação do encontro anterior, em que falamos de couraças, que segundo ele ele teriam como principal caraterística o contraste entre as correntes vegetativas (quando a couraça se desfaz) e o encouraçamento. Reich, no Análise do Caráter, começa definindo as couraças como psíquicas, que seriam parte constituinte do caráter; mas ele foi percebendo que esse encouraçamento psíquico correspondia a um encouraçamento fisiológico também, o que no seguimento da sua teoria o leva a entender que esse encouraçamento se relaciona com as estases de energia também. Um bloqueio psíquico corresponde a um bloqueio somático. “Uma das formas mais encontradas de bloqueio é através da contração muscular – ao contrair os músculos de forma inconsciente diminui o fluxo dos líquidos e limita a capacidade respiratória e, portanto, diminui a produção energética”. Depois ele pediu que as pessoas trouxessem exemplos de correntes vegetativas, e apareceram como exemplos o peristaltismo, o arrepio de um calafrio, o orgasmo, o suspiro profundo, o bocejo, mudança de cor de pele, tosse sem motivo fisiológico, reflexo do vômito, coceira, sensação de agulhas no pé, eriçamento dos pelos, tremores.

  Segundo o Pedro, embora no dicionário esses termos sejam sinônimos, nas terapias corporais de uma forma geral se usam os temos mobilidade e motilidade de formas distintas: motilidade seriam movimentos involuntários, enquanto mobilidade seria a movimentação voluntária. A partir de uma pergunta nesse momento o Pedro trouxe uma informação que me espantou, na verdade me deixou um tanto incrédulo, de que existem yogues (pessoas que praticam yoga) que conseguem controlar seus batimentos cardíacos a ponto de serem declarados clinicamente mortos por médicos; vou fazer alguma pesquisa sobre isso, é sem dúvida um assunto interessante. Uma pessoa, então, trouxe o questionamento de que não existiria tão forte essa distinção entre voluntário e involuntário, visto que focando tudo pode ser controlado. Mesmo sem questionar essa informação de que “tudo pode ser controlado com foco e treino”, eu apontei que ainda há uma distinção possível entre voluntário e involuntário nos dois exemplos que foram trazidos, da pessoa que sacode os pés enquanto nervosa e da pessoa que controla os seus batimentos cardíacos: no primeiro caso, alguém pode sacudir os pés estando nervoso, calmo, agitado, tranquilo etc., enquanto a (suposta) pessoa que pode controlar tão intensamente seus batimentos cardíacos só pode fazê-lo sob determinadas condições.

  Mais pra frente o Pedro trouxe uma diferenciação interessante entre bioenergética e vegetoterapia: a primeira, que trabalha com a ideia de exercícios, tem como prática e objetivo produzir algo no sujeito, enquanto que na segunda o objetivo é gerar carga para que algo se produza no sujeito. Independente das considerações possíveis de serem feitas sobre as noções de energia e carga, essa diferenciação é realmente interessante: na bioenergética, de acordo com essa definição, se estabelece um objetivo de algo que se quer ver presente na pessoa e, através de exercícios, busca “construir” isso nela. Um exemplo simplista mas ilustrativo seriam exercícios de alguma arte marcial que intentam ensinar uma técnica específica, como um chute – a ideia do exercício é ensinar aquele chute, desenvolver na pessoa a capacidade de reproduzir aquele chute. Já na vegetoterapia, ainda segundo essa definição, a ideia é fornecer mais energia para que as coisas que já estão presentes na pessoa possam se manifestar mais livremente. Seguindo o exemplo anterior, seria como se uma pessoa aprendesse princípios de fisiologia e dinâmica do movimento e, a partir disso, desenvolvesse uma técnica de chute. O exemplo realmente não é bom, mas acho que aponta um caminho de compreensão (e é o melhor que consegui nesse momento).

  Depois de um caminho por comparações com física quântica (que sempre me causam uma reticência, não só na formação do IFP mas em qualquer lugar, pois na maioria das vezes esse termo “quântico” vem completamente desacompanhado de qualquer discussão sobre física, parece haver uma ignorância de que o estudo que chamamos genericamente de “física quântica” geralmente se refere a “mecânica quântica” – e nessas conversas de “psicologia quântica”, “cura quântica”, “poder do pensamento”, “a realidade é mutável pela mente” e tantas outras eu nunca detecto uma real apropriação de mecânica, nunca vejo equações, relações estabelecidas, testes de hipótese e procedimentos mínimos que a física vem usando há séculos), plasticidade do cérebro e seu papel no organismo, o Pedro trouxe a discussão sobre o ressurgimento das emoções recalcadas. Segundo o Pedro, para Freud recalque é inicialmente “a separação do quantum energético, da emoção, da sua representação”, com a motivação da pessoa não lidar com aquela emoção que estava sendo recalcada, ou ter emoções contrárias que impedissem aquela carga emocional – pela intensidade ou pela contradição de sentimentos internos. Mas ao falar posteriormente sobre sentimento de culpa inconsciente, Freud quebraria com essa lógica: se o recalque é a separação de uma quantidade de energia e seu “armazenamento” no inconsciente, não haveria essa qualidade (a culpa), só uma quantidade (a energia seria quantidade – por isso quantum de energia). Dentro da teoria reichiana, o que permite que o recalque possua uma qualidade é o sentido dessa energia: expansão, contração, expansão contraída. O Pedro relacionou apenas a expansão contraída à raiva, mas dado o arcabouço reichiano, acredito que a expansão seria relacionada ao prazer e a contração ao medo, fazendo assim o trinômio das emoções básicas reichianas, que possibilitariam esse “armazenamento” da qualidade, e não só da quantidade, no recalque. Pedro falou também de frequência energética, fazendo comparação com as cores, que são frequências de onda do espectro eletromagnético.

  Ao responder uma pergunta sobre essa questão da culpa inconsciente, o Pedro trouxe uma informação interessante que vale muito a pena tentar buscar e aprofundar para a construção de uma coerência epistemológica da teoria reichiana; ele disse: “essa preciosidade que eu estou falando aqui, o Reich não descreve isso assim – a gente deduz, dos escritos dele, que ele tenha esse tipo de leitura. É muito interessante que em alguns textos (eu não me lembro qual, talvez na entrevista que ele dá sobre Freud, Reich fala sobre Freud – eu acho que é nesse, não vou te dar certeza) ele fala algo muito interessante; fazem uma pergunta pra ele ‘e as estruturas, ego, id, superego, como você mantém?’, ele fala ‘olha, agora são desnecessárias, porque agora existe uma dinâmica que explica melhor as próprias situações que essas entidades foram criadas para poder explicar’. Na verdade é uma dinâmica, então você não precisa ter uma estrutura psíquica, basta ter um fato psíquico, e aí a dinâmica dá conta dessa explicação”. Por que eu acho isso tão interessante? Pois aponta um movimento no próprio Reich que traz dois elementos fundamentais para a construção do conhecimento: primeiro, um geral sobre epistemologia, que é a compreensão de que o conhecimento é sempre parcial e uma tentativa de alcançar a realidade, não uma descrição desta e, por isso, temos que ir adequando a nossa teoria às vicissitudes que encontramos; segundo, a compreensão específica sobre psicanálise de que o modelo de Freud não é uma descrição de ago observável, mas uma analogia de funcionamento da mente, ou seja, que as estruturas descritas na segunda tópica não existem de fato, mas são uma ferramenta que nos ajuda a entender o funcionamento da mente, e quando Reich entendeu que tinha uma analogia melhor para explicar os fenômenos que observava, não hesitou em utilizá-la em detrimento da anterior. Isso faz completo sentido dentro de uma discussão sobre a produção do conhecimento científico, algo que eu identifico muito presente na obra de Reich mas pouco presente na prática e discussão reichiana contemporânea. Realmente tenho que procurar essa entrevista e indexar isso, pra ir gerando acúmulo sobre essa discussão no texto reichiano e poder produzir algumas reflexões e materiais em cima. Nessa mesma questão, o Pedro citou uma frase/ideia do Winnicott, que experienciou muitas regressões dos pacientes dele ao momento do parto: “e ele falava o seguinte: ‘eu não acredito nos detalhes desse relembrar, porque em várias frases posteriores (criança, adolescente, adulto, jovem) você vai acoplando e associando lembranças àquela emoção básica’ – mas ele acreditava na emoção básica do parto. Se ele era ruim, era uma emoção de contração, se era bom era uma coisa fantástica e tal; ele não acreditava nos detalhes da lembrança, mas ele acreditava na base emocional porque a base emocional foi reproduzida – não com o mesmo material, mas exatamente com a sua funcionalidade emocional daquela época. Deu pra entender? Isso é Pedro, tá? Achando que está desdobrando Reich”. Outra excelente colocação para repensar certos essencialismos.

  Um momento que foi surpreendente para todas as pessoas ali, ao menos no que pude reparar, foi quando o Pedro disse a seguinte frase: “Interessante que eu vou dar um negócio que talvez ninguém tenha falado para vocês… Porque vocês lembram, né: terapia reichiana, o que que tem? Sete segmentos! Não é isso? O Reich nunca falou disso – nunca escreveu, falar pode ser que tenha falado”. Eu fui um que imediatamente peguei meu caderno para anotar isso, então não lembro da expressão das pessoas ao ouvir essa informação, mas certamente houve alguma reação, pois ouvindo agora a gravação da aula, logo após essa frase o Pedro continua falando mas rindo: “Quem começa a falar dos sete segmentos é o Baker, no Labirinto Humano, tá? O Reich descreve zonas de funcionalidade, no abdômen, , não sei o que… Pode ser até que ele tenha falado de sete segmentos; mas quem conhece o Baker, já leu, ele é didático, mas como todo mundo didático ele enrijece – então você tem que tomar cuidado com isso, porque toda didática é recorte (…) Então se criou os sete segmentos, mas a primeira vez aonde ele são descritos como sete segmentos na totalidade é no Baker – o Baker era aluno do Reich, tá, foi um cara que ele considerou que era um continuador lá do negócio; então provavelmente o Reich falou sobre sete segmentos. Mas é importante também que isso não seja rígido”. Eu cheguei a fazer uma pergunta sobre a questão que ele havia trazido anteriormente de o Reich falar de grupos de músculos que se movem de acordo com uma resposta a uma corrente vegetativa, no sentido de que existem grupos de músculos que respondem aos mesmos tipos de estímulos emocionais, se nem nesses trechos ele identificava alguma pequena formulação do Reich no sentido dos segmentos e ele foi bem categórico: “Eu já li a obra inteira do Reich – que eu saiba – eu nunca vi ele descrever os setes segmentos, nunca. Ele descreve aqui o abdominal, o pélvico… mas ele não fala do diafragmático… ele descreve a testa. Obviamente que ele já estava intuindo essa conformação, mas o que acontece… Eu não sou contra os sete segmentos, eu sou contra os sete segmentos, eu sou contra o enrijecimento dos sete segmentos”.

  Depois dessas explicações e conceituações (que segundo o Pedro são as bases da vegetoterapia teórica, que ele busca trazer nas aulas intercaladas com as práticas para que o entendimento fique mais visceral), partimos para a parte prática dessa aula, que foi o seguinte: cada pessoa recebeu uma folha de papel com um desenho (uma mandala tibetana), e deveria fixá-la com fita na parede de forma que ficasse na altura dos olhos estando a pessoa em posição de grounding (os pés firmes no chão, separados mais ou menos pela distância dos ombros, com os joelhos levemente dobrados); a mandala era composta de três tipos de elementos: umas “barras recortadas”, como uma onda quadrada; traços retos e longos; círculos preenchidos. A ideia, então, era acompanhar com os olhos a borda dessas figuras, circundando toda a mandala, primeira pelas barras e traços, depois pelos círculos. Antes do início da atividade, o Pedro nos instruiu a fechar os olhos e sentirmos como estávamos naquele momento, sintetizando em uma palavra, imagem ou expressão o como estávamos naquele momento. Depois de fazermos o “percurso” da mandala com os olhos, sentamos e fizemos uma roda de impressões sobre a atividade.

  Como sobrou algum tempo até o fim da aula, o Pedro sugeriu duas possibilidades: fazermos novamente o exercício da mandala (algumas pessoas na roda de impressões relataram esse desejo, assim como uma disse que fazer sem os óculos foi ruim e o Pedro disse que, repetindo, ela poderia fazer com os óculos e comparar a diferença) ou fazermos uma outra atividade; algumas pessoas se manifestaram pela segunda opção, e assim fizemos. Ficamos de pé, formamos uma roda, e fomos fazendo uma espécie de automassagem, em pontos e de formas que o Pedro ia nos indicando (alguma coisa se perdeu na gravação, por conta das indicações visuais): inicialmente, abrir bem os olhos e ir girando os olhos buscando “ampliar a visão”, sem mexer a cabeça, cuidando também da respiração e de estar “enraizado” no chão; piscar os olhos, esfregar as mãos e fazer conchas sobre os olhos, continuando a respiração e a sensação dos pés; massagear a testa e o couro cabeludo suavemente; massagear os cantos do olhos, as glândulas lacrimais, com a ponta dos dedos; pegar os cílios da pálpebra superior, colocá-la por cima da pálpebra inferior e manter um pouco; piscar um pouco e massagear com movimento de pinça as sobrancelhas; trabalhar com movimentos circulares toda a extensão das orelhas e atrás delas, depois puxando um pouco as orelhas para os lados, para baixo e para cima; esfregar as mãos para esquentá-las e posicioná-las sobre o rosto, descansando um pouco; passar as mãos pelo couro cabeludo; massagear a borda do osso occipital; tentar mover, com as mãos, toda a parte do couro cabeludo, pra frente e para trás, para um lado e para o outro; fazer um movimento de “limpeza”, passando as mãos pelo rosto e braços e “jogando” para o centro da roda; massagear um ponto na aba do nariz; massagear um ponto no meio da sobrancelha; massagear um ponto “um dedão pra cima” do ponto anterior; procurar um ponto no centro da cabeça, massageá-lo, e procurar imaginar um linha ligando esse ponto ao períneo, e “acertar” o corpo a partir dessa linha; esfregar as mãos para esquentá-las e massagear o pescoço, procurando atingir a região lateral da coluna; massagear a garganta, emitindo um som de “ahhh”; soltar a cabeça e rodá-la bem devagar, para um lado, parando caso sinta algum ponto de tensão e, ao completar uma volta, girar para o outro lado; virando todas as pessoas para a esquerda, massagear com “soquinhos” os ombros da pessoa da frente, depois virando para o outro lado e repetindo o movimento; novamente o movimento de “limpeza”, “jogando a energia para o centro”. Depois disso fizemos a rodada de impressões, aonde as pessoas foram dizendo o que sentiram na execução da atividade. Uma coisa que me chamou a atenção enquanto fazíamos e muito mais ouvindo a gravação posteriormente foi o que tenho chamado internamente de “gemeção reichiana” – as pessoas tem uma necessidade específica de suspirar alto, algumas chegam a gemer mesmo, e depois sempre o relato utilizando palavras como “prazer”, “fluxo”, “descarga”. Teve uma pessoa que fazia outra disciplina conosco, acredito que já até falei disso num relato anterior, que eu previa e acertava que as descrições dela sempre teriam a palavra “prazer”, mesmo quando ela dizia coisas como “senti um medo, mas ao mesmo tempo um prazer”. Acho interessante que quanto mais imersa nesse universo reichiano (seja com tempo de formação ou vindo com acúmulos externos) a pessoa está, ou quanto mais pessoas assim no grupo, mais forte é a presença da “gemeção reichiana”. Algo que quero poder experimentar é levar esses actings, exercícios e atividades do curso para oficinas de percepção corporal ou atividades de mística para reuniões e fazer essa comparação, de como a coisa acontece em ambientes menos permeados desse background reichiano.

  Após o almoço, houve uma pequena conversa que me foi muito interessante acompanhar e que nasceu de um equívoco de entendimento: o Pedro disse “agora vamos falar de uma coisa muito importante para o Reich, que é a respiração”, e uma pessoa ouviu “menstruação” ou invés de respiração. Disso, o Pedro apresentou a sua hipótese que as mulheres são menos bélicas do que os homens por possuem, no mínimo, uma descarga ao mês, enquanto os homens estariam condicionados ao sexo para tê-la. Mais um dos essencialismos que sempre se fazem tão presentes nesses meios, como já apontei algumas vezes. Fiquei pensando que isso não faz tanto sentido dentro do pouco que entendo da teoria reichiana, de comparar a menstruação ao orgasmo enquanto descargas – o Reich tem toda uma construção sobre o orgasmo, os movimentos mesmo que ele provoca, e concordando ou discordando dos significados que possam ser dados a isso, acredito que é inegável que esses mesmos movimentos não são produzidos na menstruação. Perguntaram sobre as mulheres que não mestruam, e a resposta do Pedro foi somente “ah, essas estão fodidas”, havendo uma risada razoavelmente generalizada após isso. São coisas assim que, acredito, devem nos colocar para pensar mais nas ideias que vamos aceitando, e por isso vejo a importância de estar em contato com outros paradigmas e manter sempre uma postura um tanto cética e investigativa frente ao conhecimento, principalmente no caso dessas teorias totalizantes.

  Voltando à respiração, o Pedro disse que para o Reich ela era importante pois se tratava de um pulsar visível e que gera energia (seriam três formas de gerar energia: alimentação, movimento e respiração). Ele pediu uma pessoa voluntária, colocou-a deitada em um colchonete e simplesmente pediu que ficasse ali, respirando; esse seria o primeiro movimento da técnica que iríamos trabalhar nessa aula, observar a respiração da pessoa. Depois de um momento observando, o Pedro pediu que as pessoas dissessem que coisas conseguiam observar na respiração dessa pessoa; algumas pessoas relataram, mas mesmo antes para mim estava bem claro como a respiração da pessoa se fazia basicamente na parte abdominal, não chegava na região peitoral. Isso é interessante pois quem é colocado nessas posições de voluntário acaba ficando muito auto consciente e, por isso, leva a respiração para o que seria o modelo reichiano, a tal respiração em quatro etapas (comigo mesmo isso acontece); então, estava claro para mim que mesmo com essa maior consciência sobre a própria respiração, essa pessoa não estava conseguindo uma amplitude que permitisse a respiração mais peitoral de acontecer, o que, então, eu creditava a questões estruturais e que, por mais que pudessem ser trabalhadas com fisioterapia e exercícios, não eram uma questão para a resolução através de um exercício de clínica corporal. O Pedro salientou isso, dizendo que realmente ele via uma respiração “em blocos”, com a parte peitoral mais presa; assim, segundo ele, a primeira coisa a fazer era, a partir dessa observação, imaginar a razão disso: provavelmente alguma contração no diafragma. Uma das formas de explorar essa hipótese seria trabalhar uma massagem nas costelas da pessoa, que ele fez, e a pessoa relatou que além das cocegas havia uma sensibilidade incômoda nesses movimentos feitos pelo Pedro; depois, ele passou para o tórax, também fazendo movimentos com a mão aberta na região, esfregando. Depois de menos de um minuto, posicionou as mãos no peito da pessoa e pediu que a pessoa, ao inspirar, empurrasse a mão dele, e permaneceu assim, fazendo alguma pressão, movimentando um pouco as mãos para mudá-las de posição, fazendo pressão na região do diafragma com a ponta dos dedos, por uns dez ciclos de respiração, quando então começou a fazer “empurrões” leves, como uma ondulação, que faziam a expiração da pessoa sair entrecortada, aumentando gradualmente a intensidade, depois voltando a movimentar as mãos pelo tórax e abdômen da pessoa, e assim permanecendo, intercalando movimentos, explorando diferentes partes com diferentes movimentos, por cerca de oito minutos. Ao final, pediu para a pessoa relaxar e, quando pudesse, dizer como estava se sentindo; ela disse que se sentia relaxada, que sentiu a respiração ficando mais torácica, que no meio do exercício sentiu um certo cansaço de manter a respiração profunda mas que estava voltando ao normal. O Pedro perguntou se observávamos alguma diferença na respiração dele, e era inegável que a respiração estava mais equilibrada na relação peito-abdômen, o que sinceramente me surpreendeu pelo motivo que explicitei antes – estando ele sob os holofotes, era de se imaginar que faria o máximo, mesmo de forma inconsciente, para “respirar certo”, e aqueles poucos minutos de massagem efetivamente alteraram o padrão da sua respiração.

  O exercício prático então foi baseado nessa demonstração que o Pedro fez: formamos duplas, aonde uma pessoa deitava e respirava, enquanto a outra observava essa respiração e, a partir dessa observação, faria as intervenções com massagens, toques e pressões de acordo com aquilo que fosse achando necessário. A ideia é fazer com que a respiração da pessoa fique o mais “orgânica” possível, com movimentos sincronizados entre o abdômen e o peito e com formas mais arredondadas e fluídas, ao invés de picos entrecortados. As impressões das pessoas durante as rodas foram as mais diversas, desde pessoas que não relataram grandes sensações até uma que não conseguiu fazer o exercício por muito tempo pois sempre que tentar exercitar a respiração entra em processo de hiperventilação, passando por expressões de raiva, sentimentos de prazer, choros e formigamentos. Terminamos a aula com uma roda de relaxamento, fazendo movimentos para soltar os músculos e “descarregar as energias”.

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