17 de fevereiro de 2019 – quarta aula de Oficina do Corpo IV

Nesse dia iniciamos o trabalho com o segmento abdominal; foram três encontros trabalhando com o segmento diafragmático, serão três agora trabalhando o abdominal. Como iniciamos um novo segmento, o início do encontro foi dedicado à teoria; não tivemos grandes aprofundamentos, na maior parte do tempo as pessoas ficaram respondendo à provocação do Marcus Vinícius sobre “o que vem à cabeça quando falamos do abdômen” – a maioria absoluta das vezes com frases populares como “borboletas no estômago”, “frio na barriga”, “fulano está enfezado” etc. O Marcus Vinícius enfatizou mais uma vez que os segmentos corporais não são estanques, não há um exato limite de onde começa um e termina o outro; no caso dos segmentos diafragmático e abdominal, eles estão superpostos, visto o posicionamento do diafragma e sua movimentação. Geralmente o que é nasal tem relação com o segmento diafragmático, enquanto aquilo que é oral se relaciona com o segmento abdominal. Como é pela boca que iniciamos o processo de processamento dos alimentos, o segmento abdominal está relacionado, do ponto de vista simbólico, com união e separação, com o como você processa aquilo que recebe.

A prática do encontro, contudo, não fugiu muito do protocolo que temos seguido durante o curso, pois fizemos o mesmo exercício de respiração que foi feito das três vezes anteriores, com dois diferenciais: a) dessa vez era pedido aos pacientes que fizessem a expiração pela boca e b) as terapeutas deveriam colocar a mão na barriga das pacientes, na altura do umbigo.

Ao fazer o papel de paciente, essa foi a primeira vez nesse exercício em que me vieram imagens, em todas as outras vezes eram mais sensações que me ocorriam. De início me veio a imagem de uma ave, voando bem alto, e em um momento eu assumo o ponto de vista dessa ave; a partir disso começam a surgir muitas paisagens da água do mar encontrando a costa, sempre uma costa alta, rochosa, com muita natureza preservada – nunca era uma praia no sentido que estamos acostumadas a pensar, com uma extensão de areia, pessoas e civilização próximo. Essas imagens não me trouxeram nenhuma associação, nenhum sentimento, nenhum desejo; no momento em que conversei com a pessoa que fez o exercício comigo ela ficou perguntando sobre isso, sobre o que eu havia sentido, se as imagens me traziam alguma coisa, se eu podia fazer alguma conexão… forçando um pouco eu falei que, talvez, pudesse relacionar aquelas imagens ao meu desejo de, um dia, construir uma comunidade afastada do caos urbano em que vivemos.

Interessante, contudo, que nas outras duas duplas aconteceram reações emocionais muito fortes; em uma, uma pessoa começou a gritar com muita força, um grito de raiva como de quem já está saturada de alguma coisa que lhe importuna e tira o sossego, um grito que veio da primeira vez sem anúncio, tanto que assustou as outras pessoas; e na outra dupla houve um choro muito intenso de uma pessoa, um choro triste e carregado, que durou alguns minutos. Acho que em todos os encontros tivemos algum tipo de coisa assim durante esse tipo de exercício; no entanto, uma coisa sempre me incomoda nessa execução. O Marcus Vinícius instrui todas as vezes que a expiração deve ser mais curta do que a inspiração, geralmente fazendo a correlação com um suspiro; no entanto, em todos os exercícios em que foi pedida uma vocalização (sempre no sentido de “deixem o ar vibrar as cordas vocais e produzir o som que tiver que produzir, sem preocupação com esse som”), as pessoas tendem a estender essa expiração no que, na minha interpretação, é uma tentativa de prolongar o som emitido. Se a respiração em quatro tempos é importante por um motivo intrínseco, então esse tipo de comportamento é um desvio da prática corporal; mas é inegável, pelas experiências que tive nas oficinas, de que há uma catarse a partir desses exercícios e desses momentos. Ainda não consegui dedicar reflexões profundas e bem assentadas o suficiente sobre esse tópico para ter qualquer tipo de conclusão, mas tenho pensado, como hipótese, que a diferença está na conexão que se estabelece entre as duas pessoas na hora do exercício, não exatamente pela técnica empregada do trabalho corporal; essa hipótese é reforçada por duas observações comparativas: no último encontro fizemos um exercício de respiração “individual” (na verdade o Marcus Vinícius fazia os movimentos e nós deveríamos imitá-lo; segundo ele, no trabalho clínico, a terapeuta deve sentar de frente ao paciente e pedir que este repita os seus movimentos), e nenhuma manifestação desse tipo aconteceu, nem nada próximo a isso; na parte prática da última aula de Introdução ao Pensamento Reichiano, ao explicar um trabalho corporal com as pernas, o Pedro foi bem categórico ao dizer que não adiantava fazer aquele tipo de exercício com um atleta ou alguém com pernas muito forte (o exercício buscava “cansar” as pernas da paciente e depois deixá-las sustentadas “vibrando” enquanto chamava a sua atenção para outra parte do corpo). A comparação com o exercício da respiração é um tanto óbvia: quando existem duplas as manifestações catárticas acontecem, quando fizemos sem essa conexão não houveram as manifestações. A questão com o exemplo do trabalho apresentado pelo Pedro é salientar que existe uma especificidade na técnica, não é e nem pode ser um “qualquer coisa vale”. Obviamente minhas observações não fornecem material para nenhum tipo de conclusão, nem chego perto disso, mas é algo que vem me intrigando, pois destoa muito o momento aonde as pessoas estão respirando sem emitir som oral e quando o fazem, ainda mais se comparado com as instruções passadas pelo Marcus Vinícius. É algo que posso buscar perguntar em algum momento, mas quero pensar um pouco mais sobre isso; além do mais, já prevejo alguns olhares e resistências se formando quando eu formular esse questionamento…

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