07 de abril de 2019 – sexta aula de Oficina do Corpo IV

Infelizmente essa foi uma aula aonde eu cheguei atrasado e, pelo que entendi, foi uma aula com uma explicação inicial do exercício bem extensa, pois acredito que cheguei mais de uma hora atrasado e o Marcus Vinícius ainda estava dando as explicações, sem ter iniciado o trabalho corporal.

O meu atraso se deveu a um acúmulo de questões trazidas da reunião de formação de turma do dia anterior; quem leu o boletim do mês de maio tem uma descrição um pouco mais detalhada do que foi mas, em resumo, saí dessa reunião triste por ver um espaço que dizia procurar o consenso abandonar esse valor diante de pequenas dificuldades. Sempre sinto um clima de “profecia auto cumprida” nesses casos, do tipo pessoas que dizem “o consenso não funciona” mas são justamente elas que dificultam qualquer possibilidade de se estabelecer uma lógica do consenso. Como dormi na casa do Wilian, ao acordar começamos a trocar uma ideia sobre isso e, quando percebi, já estava atrasado para a aula.

Pelo que peguei do final da explicação do Marcus Vinícius o exercício se trataria de uma massagem, executada no segmento abdominal da seguinte forma: deveríamos imaginar três ou quatro meridianos verticais no corpo do paciente e, com os dedos, fazer movimentos circulares em sentido anti-horário por esses meridianos, de cima para baixo na região da barriga e de baixo para cima na região das costas. Tendo chegado atrasado e a turma já estando em número par, fiquei satisfeito por ocupar a posição de observador, pois não estava em um bom momento para fazer qualquer exercício, além de ao menos uma vez poder ter esse olhar de fora para o trabalho que fazemos nas aulas; já havia até pensado em não emitir opinião nenhuma na roda de impressões finais, a não ser que algo realmente me chamasse muito a atenção, pois não gosto dessa posição de “voz final” que acaba tomando a opinião de quem ficou observando. No início do exercício eu fiquei nessa posição de observador, mas quando uma primeira dupla trocou as posições, o Marcus Vinícius pediu que formássemos um trio, de forma que A fosse terapeuta de B, que seria terapeuta de C, que seria terapeuta de A.

Ao fazer o papel de terapeuta achei bem interessante o que pude experienciar comparando com o exercício que fizemos no segundo encontro. Nessa massagem, a pessoa que fazia o papel de paciente comigo indicou e mesmo chegou a pedir que eu fizesse a massagem com mais pressão, que pressionasse os dedos com mais força, e da segunda vez que a pessoa pediu isso eu já estava achando um excesso, mas apliquei um pouco mais de pressão e continuamos o exercício; a comparação com o segundo encontro, que fiz no momento da roda final de impressões, foi que nesse dia a pessoa que fez comigo relatou que sentiu dor quando pressionei seu diafragma, e isso me espantou pois lembro de ter tomado muito cuidado para não fazer pressão excessiva – daquele ponto em diante fiquei com esse receio de “ter a mão pesada”. Nesse exercício da massagem, a pessoa que fez comigo relatou na roda final que continuou sentindo a necessidade de que eu colocasse mais força nos movimentos, mas que depois de pedir algumas vezes e ainda sentir essa necessidade começou a pensar se não teria um masoquismo atuante ali. Disse também, quando relatou o que havia sentido durante o exercício, que no início sentiu muito prazer, chegando a ter uma excitação sexual (usou a palavra “tesão”), e quando a massagem foi nas costas chegou a dormir um pouco.

Quando fiz o papel de paciente também me permitiu sentir e refletir sobre o exercício de forma interessante. De uma forma geral, receber uma massagem é algo interessante, então esse exercício foi muito bom nesse sentido; porém, como fizemos em um trio, havia uma questão presente do tempo, de termos que fazer um pouco mais rápido do que as outras pessoas, e acabou que quando fiz o papel de paciente foi no final, então a pessoa que fazia o papel de terapeuta ficou com isso do tempo na cabeça (ela mesma disse isso na roda final) e fez o exercício meio rápido. Na roda final pude fazer uma reflexão interessante sobre isso relacionando com outra fala, detalharei mais abaixo.

Na roda de impressões, achei interessante como certas falas e até mesmo fórmulas sempre aparecem; por exemplo, eu “sabia” que uma pessoa apontaria que o exercício lhe trouxe alguma sensação geralmente entendida como ruim e que adicionaria um “mas ao mesmo tempo uma sensação de prazer”, e essa pessoa “não me decepcionou”, fazendo, mais uma vez, esse tipo de associação. O próprio uso da palavra “prazer” é uma constante, de tal forma que sempre me fez pensar que não é apenas uma coincidência, como se aquela oficina por acaso reunisse pessoas que usam constantemente essa palavra em seus diálogos, mas sim que o ambiente e as pessoas que o compõem trazem essa palavra e ela se torna parte daquele habitus; pouco se ouve “tive uma sensação boa”, “gostei do que senti”, “achei muito bom” ou coisas do tipo, ao menos não sozinhas, é sempre necessária a presença da palavra “prazer” marcando as falas. Como busco me recusar a virar rinoceronte, também ficou evidente pra mim como pessoas que no primeiro dia acharam artificial certos comportamentos de pessoas que já estavam no IFP (e mesmo nas Oficinas do Corpo) há mais tempo terminaram a oficina reproduzindo e reivindicando naturais comportamentos iguais ou muito semelhantes. Talvez haja realmente um algo de natural nisso e eu é que seja um teimoso que usa o racional como defesa, certamente é uma possibilidade, mas a Occam e sua navalha me fazem tender tanto mais pro outro lado…

Falando em defesas, a reflexão que falei que fiz advém justamente dessa ideia. Quando falei das minhas impressões fazendo o papel de paciente, ressaltei a frustração de aquele sentimento bom despertado pela massagem acabar tão rápido, sentimento que ia se anunciando, pois eu conhecia as etapas do exercício e conseguia perceber o fim se aproximando; no entanto, falei como era importante pra mim não interferir nesse processo, pois o exercício não era sobre eu sentir coisas boas, mas um processo para as duas pessoas, e fazê-lo daquela forma poderia ser importante no processo da outra. Nisso, uma pessoa disse que, por mais que o objetivo não seja sentir coisas boas, também podemos perceber que estamos sentindo aquilo e pedir que a outra pessoa continue um pouco mais para explorarmos mais aquele sentimento; certamente esse raciocínio faz completo sentido, pois o exercício não tem que ser fechado e o diálogo pode ocorrer. Mas lidar com a sua frustração de ter algo bom interrompido também é explorar mais esse sentimento, então quando escolhemos sentir mais prazer do que frustração não podemos achar que é uma escolha qualquer em meio a um universo de possibilidades – e esse é um ótimo exemplo de como podemos (e, na minha opinião de merda, devemos) utilizar a análise do discurso enquanto ferramenta analítica. Eu não presenciei e acho muito pouco provável presenciar alguém pedindo o contrário, que seja interrompido um exercício que lhe está lhe trazendo sensações agradáveis para que possa explorar a frustração. Então não consigo entender essa fala como algo que não a defesa de um comportamento próprio, pois desconsidera algo óbvio e faz um direcionamento a algo que não lhe foi diretamente direcionado; obviamente não estou defendendo que devemos nos calar quando algo nos incomoda, quem me conhece sabe que meu comportamento passa longe disso. Mas isso me chamou mais ainda a atenção por vir de uma pessoa que aponta muito a racionalidade como mecanismo de defesa em outras pessoas, mas não consegue perceber quando o faz tão claramente. Acho curioso que logo eu, que sou conhecido pela insistência e não ceder, seja, comparativamente, uma das pessoas que menos faz réplicas nesses momentos nessas aulas; claro que tem um tanto do meu cinismo de ter percebido que a maioria das pessoas ali gosta sempre de ver um “por trás” do que é dito, então não vejo sentido em gritar com surdos, mas, mesmo que pareça um auto elogio, também tem o meu esforço contínuo e custoso de aprender a ouvir, não a partir da premissa de que todo mundo merece ser ouvido (porque tem gente que efetivamente não merece) mas da ideia de que eu mereço ouvir as coisas com atenção se quero dialogar com elas.

Em relação ao assunto “defesas” também foi muito interessante como, ao relatar o problema em relação ao consenso da reunião do dia anterior, duas pessoas me interromperam (e até se interromperam também) para discordar dos meus pontos; aqui, completamente parcial ou não, tenho que registrar: completamente equivocados. E digo isso por um motivo simples: nenhuma das duas parecia ter a real noção do que é o consenso e de como se constrói ele; talvez exatamente por isso continuavam insistindo no assunto mesmo quando eu dizia que não queria desenvolver aquilo para poder continuar meu relato (tive que tocar no assunto para explicar que não havia chegado na aula no meu melhor e poder, com isso, contextualizar minhas impressões sobre o exercício), me interrompendo continuamente – pessoas que não entendem a importância de não atropelar a fala das outras não podem efetivamente entender a importância do consenso ou, ao menos, a entendem e não a valorizam. Uma pena, mesmo.

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