29 de junho de 2019 – segunda e terceira aulas de Análise do Caráter II

  Depois de um momento inicial ocupado com a distribuição um tanto vagarosa das folhas com o texto que serviria de base para as nossas aulas, o Marcus Vinícius iniciou reforçando a ideia de que a tipologia de caracteres apresentada por Reich no livro Análise do Caráter não é uma tipologia fechada mas, ao contrário, uma tipologia aberta – tendo o Reich inclusive dito que “haverá tantos caracteres quantos a sociedade puder produzir” e ter descrito um caso que relata no livro como “Caráter Aristocrático”, uma clara invenção em relação à dinâmica particular do paciente em questão. Ressaltou também que é “super complicada” a ideia de utilizar o caráter como uma “etiqueta” que se coloca no paciente e, assim, nunca se altera; de certo que há uma permanência na estrutura, mas mesmo limitada a vida possui mudanças, o caráter seria, assim, não uma estrutura imóvel ou com pouca mobilidade, mas uma estrutura que dá algum grau de consistência e durabilidade mas existe um funcionamento, um movimento – o caráter como um “modo de existir” de cada paciente. Achei muito adequada e importante essas colocações, pois vejo a tendência justamente para o lado oposto, das pessoas muito preocupadas em rotular, em entender qual é o caráter a partir de qualquer ínfimo detalhe; por vezes até em professores vejo esse comportamento. Certamente é compreensível esse comportamento, pois na falta de uma compreensão maior e de frente a uma dificuldade é comum recorrermos a esquemas e fórmulas salvadoras; isso já foi até motivo de discussão entre as pessoas nos intervalos das aulas, uma afirmando que fulano é caráter tal e fulano discordando fortemente disso. Assim, por mais que ninguém pareça discordar quando pontos como esse que o Marcus Vinícius trouxe são colocados, imagino que não há como estressar demais essa questão, ela deveria ser uma preocupação mais constante e explícita na formação – de que as pessoas não se tornem etiquetadores de caráter. Achei interessante que nessa exposição ele teve o cuidado de ressaltar a sutil diferença que faz questão de estabelecer entre “modo de existência” e “modo de existir” – para ele, a palavra “existência” trás um sentido mais fechado do que a ideia de “existir”. Segundo ele, a pior coisa seria “tentar enquadrar no paciente aquilo que está no papel”; para ele o ideal seria o contrário, ir observando como o paciente funciona e ir construindo a sua teoria a partir disso.

  Ainda nesse introdução o Marcus Vinícius fez uma distinção entre pós-reichianos e neo-reichianos a partir da leitura do Alexander Lowen e do Federico Navarro. Em termos simples, “pós-reichianas” seriam aquelas pessoas que continuaram os estudos de Reich, enquanto “neo-reichianas” seriam as pessoas que utilizam como base o trabalho de Reich mas trazem outros referenciais teóricos. O exemplo do Lowen, criador da Bioenergética, seria de um neo-reichiano, pois parte da ideia de bioenergia presente no trabalho de Reich, mas constrói uma teoria diferente e em alguns sentidos até mesmo oposta; por exemplo, no trabalho da bioenergética tudo começa com o grounding, a conexão com o chão, trabalhando então de baixo para cima, enquanto que o trabalho reichiano segue o fluxo céfalo caudal, da cabeça para os pés. Já Federico Navarro, que se considerava o único continuador do trabalho de Reich, também cria novas técnicas a partir do referencial reichiano mas, segundo ele, sem alterar os fundamentos teóricos estabelecidos pela obra reichiana, apenas continuando de onde Reich parou (embora hajam discordâncias – por exemplo, diz-se que o método de Navarro é um tanto quanto “fechado” e “estático”, enquanto que para Reich o trabalho corporal, embora tivesse uma ordem preferencial, deveria ser mais fluido e em contato com o que o paciente trazia na relação clínica); Navarro inclusive faz críticas ao trabalho de Lowen, principalmente na questão da terapia deste se basear em exercícios. Segundo o Marcus Vinícius, existem três principais escolas neo-reichianas: bioenergética, fundada pelo Alexander Lowen; Biossíntese, fundada por David Boadella; Psicologia Biodinâmica, fundada pela Gerda Boysen; todos tem livros em português. Existe uma quarta corrente, que por algumas pessoas é considera neo-reichiana, por outras não, que é a Psicologia Formativa, fundada por Stanley Keleman. Perguntei ao Marcus Vinícius como ele se localizava nesse campo, ele disse que se considera reichiano, nem neo nem pós, embora não pertença a um “núcleo duro” que só lê Reich e acredita que a obra reichiana da conta de toda a compreensão clínica, mas que em seu percurso há contato com leituras de Filosofia, “juntando aonde é juntável”.

  Respondendo a uma pergunta sobre a relação entre a teoria reichiana e suas rupturas com a psicanálise, que acabou gerando outra sobre a questão do sujeito em Reich (e esse questão “o que é um sujeito” é uma que preciso muito estudar e entender melhor), o Marcus Vinícius trouxe uma relação muito interessante entre a filiação político-filosófica de Reich ao marxismo e o desenvolvimento da sua teoria: “Não tem como falar da unidade psique-soma se não entender que isso ela é constituída histórica, social e politicamente e, desde sempre, energeticamente; se há algo que alinhava toda a obra do Reich, eu acho que é, ainda que isso vá se ampliando, a questão energética. Que é por onde, inclusive, que o Reich toma do Freud boa parte da sequência dele – ou seja, ainda que essa nomeação e essa compreensão da energia vá se ampliando, não mais só expressão da sexualidade, mas energia do vivo, bioenergia e depois a ideia de energia orgônica, aquilo que constitui tudo e todos e transpassa tudo e tudos. Isso de um Reich que ainda é inicialmente, lá atrás, enquanto psicanalista, um Reich marxista, que dizia ‘se há uma possibilidade então de uma psicanálise mais marxista, é uma psicanálise com um sentido mais concreto’. E onde está esse concreto? No conceito de libido, pois o conceito de libido fala de um ‘quantum’; enquanto a psicanálise só ficava nas representações, nas abstrações, na simbolização das coisas, o Reich dizia ‘mas aonde está o mais concreto aí?’ (essa é uma visão muito marxista) – o mais concreto é no ‘quantum’, na intensidade, na força”.

  Achei interessante que quando falou sobre a analogia do Reich explicando o masoquismo como uma bexiga cheia, o Marcus Vinícius fez uma referência de que em São Paulo as pessoas chamam bolas de aniversário de bexiga, e que daí viria a tradução para português do termo. Quando eu li o “A Função do Orgasmo”, nesse exemplo eu imaginava bexiga como o órgão do nosso sistema urinário; Reich propõe como exemplo uma bexiga extremamente cheia que, na impossibilidade de esvaziar-se de forma adequada, desejava ser furada para aliviar a sua tensão. Na minha cabeça isso fez total sentido com a ideia de bexiga distendida, quando a pessoa não consegue urinar e chega a um ponto que qualquer solução que antes parecia incogitável se afigura como desejável. Já ouvi um colega de faculdade relatar exatamente isso, de que em sua internação por um acidente de moto ele não conseguia urinar e os médicos recomendaram colocação de um sonda pela uretra, mas ele recusou, até um ponto onde a dor era tanta que ele aceitou a colocação da sonda; segundo ele, a colocação da sonda era muito incômoda mas no segundo que liberou o fluxo de urina o alívio foi imediato. O seriado House tem uma situação semelhante, mas na obra ficcional o próprio médico insere a sonda em si; acredito que houve pesquisa médica sobre isso, pois o comportamento da personagem é muito semelhante ao descrito pelo meu colega de faculdade – incômodo constante (o personagem tem inclusive que pegar um carro emprestado para ir embora pois não aguentaria ir em sua moto) e alívio imediato no momento que a urina finalmente fluiu. No exemplo do Marcus Vinícius com a bola de encher, ele usou ainda a analogia do movimento que crianças costumam fazer com essas bolas, de esticar a boca da bola e liberar o ar, produzindo um barulho estridente – segundo ele, esse seria o movimento do masoquista: uma grande tensão interna com liberações eventuais orais distorcidas, “barulhentas”. Segundo ele, você no processo terapêutico conseguiria pedir que um compulsivo “esmurrasse alguma coisa”, enquanto com o masoquista não. Outra coisa interessante que surgiu sobre o masoquismo a partir de uma pergunta, foi que o Marcus Vinícius disse que, segundo o Reich , “todo neurótico tem traços masoquistas”, aí uma pessoa perguntou algo como “se toda neurose é uma mistura de vários traços, por que o destaque para o masoquismo?”; a resposta foi “porque o masoquismo tem a ver com o apego ao sofrimento. Mas apego ao sofrimento não tem a ver com pulsão de morte – essa que é a diferença com o Freud. Por que apego ao sofrimento? Porque essa relação vira uma relação substituta do que seria a relação de entrega”.

  Teve um momento na aula em que uma pessoa fez uma pergunta sobre o local das pessoas assexuais dentro do referencial reichiano; essa pergunta/consideração levou a um grande debate sobre epistemologia, pressupostos e construção do conhecimento. Inicialmente comecei a relatá-lo aqui mesmo, mas dada a importância e contribuições no debate, achei importante transcrever o mais fiel possível o diálogo para depois fazer as minhas considerações. Assim, ficou bem extenso e preferi fazer uma postagem separada sobre esse assunto, que você pode acessar no link: Sobre a discussão de epistemologia na aula de Análise do Caráter II.

  Ao chegar na parte final do texto sobre o caráter masoquista, alguns minutos depois de toda a discussão sobre epistemologia, uma pessoa fez a seguinte colocação “Marquinhos, você só deu exemplo de homens nesse caráter…”. O Marcus Vinícius respondeu “É que isso parte do Complexo de Édipo, que tem dois pressupostos diferentes. Porque a mulher já nasceu castrada, ela só tem que assumir a sua castração – eu sei, isso é muito Freudiano patriarcal”, e uma pessoa disse “Um troço nojento de ouvir”, houveram algumas risadas, o Marcus Vinícius continuou “Mas é isso, sob o ponto de vista… Se a gente quiser pensar como uma potência, aí é que eu acho que a gente pode…” e outra pessoa retrucou “Já está ultrapassado isso”, e assim o diálogo foi sendo construído, com o Marcus Vinícius tentando se livrar das críticas (ele chegou a dizer, em um determinado momento, “eu sabia que ia vir um monte de flechas”), e algumas pessoas demonstrando um incômodo com essa formulação, mesmo o Marcus Vinícius pontuando que essa era uma construção social. Eu particularmente também acho que essa é uma construção equivocada, e até acredito que não basta saber disso e continuar reproduzir esse referencial, mas sim buscar outros referenciais que se encaixem melhor nas nossas críticas e observações da realidade. Um exemplo claro disso é na questão do caráter histérico: sempre que falam genericamente de um tipo de caráter, os professores utilizam o masculino (“o compulsivo”, “o masoquista”, “o fálico”, “o sádico” etc), exceto quando se referem ao caráter histérico, quando usam o feminino (é sempre “a histérica”). Isso já foi questionado em aula e a resposta foi que na época do Freud havia uma produção muito maior de mulheres histéricas (se não me engano foi falado até em exclusivamente), mas que isso é uma questão da cultura de uma época (para Reich a construção do caráter tem relação direta e necessária com o tipo de sociedade – essa produz aquele), e que hoje há uma produção muito maior de homens histéricos (o exemplo geralmente é do marombeiro de academia se olhando no espelho); mas, mesmo e apesar dessa constatação, a referência sempre é “a histérica”. Assim, de que adianta compreender que um certo comportamento e uso de termos advém de uma questão equivocada (seja ética ou contextualmente) se se continua a repetir o equívoco? Mas esse incômodo trazido pela afirmação da castração da mulher durou algum tempo e resistiu a algumas explicações, e o que eu achei muito interessante nisso foi que as mesmas pessoas que antes mostraram não entender a questão da necessidade de buscar falsear as nossas hipóteses que eu havia trazido (e algumas outras) se mostraram extremamente críticas a um pressuposto e não se contentaram com um “mas não é isso que eu estou falando” – inclusive uma das últimas pessoas a sustentar a crítica foi uma das que buscou “extinguir” o debate anterior. Ao mesmo tempo que é um tanto desolador ver que algumas pessoas só conseguem ser tocadas por aquilo que lhes diz respeito imediato e se limitam por isso, trás alguma esperança ver que ao menos o mecanismo da crítica está presente, é um solo sobre o qual, por mais difícil que seja, podemos cultivar alguma coisa.

  A partir de uma fala de uma pessoa sobre o comportamento de um paciente que ela atende em sua clínica, o Marcus Vinícius trouxe uma consideração muito interessante do Reich, tomando o cuidado de frisar que ela é “um tanto perigosa, mas que bem usada pode ser uma artimanha interessante no processo terapêutico”: a gente tem um conjunto de defesas, mas segundo o Reich tem uma principal, um eixo principal; então ele diz que geralmente a gente consegue identificar a defesa principal quando a gente consegue nomear esse paciente através de um bicho. “É perigoso como uma cobra”, “é astuto como uma raposa”, “corajoso como um leão”, “elegante feito um gato”, “se esconde como um tatu”, “se enfia num buraco como um avestruz”; mas sempre lembrando que são defesas, ou seja, não é um perigoso apenas garantindo sua integridade, ou usa sua astúcia de forma traiçoeira, ou tem uma coragem além da conta, ou uma elegância que não advém de um contato genuíno consigo mesmo, se esconde para não encarar a realidade, foge dos problemas se escondendo, etc. Lembrando também que nesse caso o terapeuta estaria “recebendo uma dica” da defesa principal do paciente, então há de se ter cuidado com esse manejo – me retornaram as reflexões sobre os primeiros capítulos do Análise do Caráter aonde o Reich fala das resistências e de como o trabalho terapêutico tem que ser feito na ordem inversa da formação do caráter.

  Mais para frente o Marcus Vinícius falou dos pares neuróticos que podem se formar a partir de caráteres que, de alguma forma, se complementam, dando como o exemplo o caráter sádico com o caráter masoquista, e o caráter histérico com o caráter fálico-narcisista. O Marcus Vinícius lembrou que o equilíbrio neurótico não se processa apenas no nível individual (como diz o Pedro, “toda neurose é uma tentativa de sobrevivência”) mas também nas relações que os indivíduos estabelecem entre si. Disso se desenvolveram algumas questões, a conversa caminhou para o caso aonde uma pessoa de um casal em equilíbrio neurótico começa o processo terapêutico e como isso, ao afetar esse equilíbrio, tende a aparecer na terapia. Aí o Marcus Vinícius pegou uma ideia base da análise do caráter e condensou em uma frase que eu gostei muito: demanda de paciente a gente não responde, a gente bota em análise. Não é papel do terapeuta resolver as questões que existem na vida do paciente, então cabe apenas, nesses casos, colocar queixas que apareçam em análise, perguntando “e como é pra você estar vivendo esse momento com seu cônjuge, mãe, irmão etc.?”. Nesse escopo ele também falou sobre (com outras palavras) uma frase que gosto muito: toda crise é boa para pensar.

  Uma pessoa fez uma pergunta muito interessante, que me fez perceber que era uma questão para mim também mas que eu não a tinha elaborado de forma óbvia – a dúvida existia na minha mente mas a pergunta não. Em resumo, foi sobre se essa tipologia caracteriológica poderia ser utilizada também em psicóticos; o Marcus Vinícius indicou a leitura de um caso no Análise do Caráter aonde o Reich descreve o trabalho clínico com um psicótico, mas não foi muito além disso na resposta. A pessoa que fez inicialmente a pergunta teceu mais algumas considerações, algumas pessoas deram uma ou outra contribuição pontual, mas quando parecia que o assunto tinha cessado eu ainda não tinha sanado a minha dúvida, então fiz o questionamento de forma mais direta (algo como “pra mim que estou de fora ainda ficou a pergunta, que talvez tenha sido respondida pra ele mas pra mim não foi: e o caráter do psicótico? Se você diz que o caráter é o ‘jeito de existir’, um psicótico tem um jeito de existir – e aí?”) – passaram uns cinco segundos de silêncio até que alguém dissesse “não responde, Reich não fala disso”, começar alguma burburinho e então o Marcus Vinícius se posicionar mais ou menos assim: “olha só, tem o trabalho com o esquizofrênico; mas quando você fala de ‘caráter esquizofrênico’ é que eu acho que é a grande questão. Você pode falar de caráter esquizóide, que é o neurótico que não fez o corte completo com a realidade, então ele tem características de separação, de isolamento, de uma série de coisas que seriam de uma psicose mas, no entanto, ele é neurótico, porque ele está situado, fundamentalmente ele tem uma estrutura de ego que lhe permite tocar uma razoável adaptação ao mundo – como a gente o entende. Diferente de um psicótico. Eu acho que o trabalho com o psicótico ele é outro, de fato”.

  Um último momento dessa aula foi uma explicação que o Marcus Vinícius deu dos conceitos de somatização e conversão, como sempre iniciada por conta de uma pergunta; no entanto, a explicação começou também com uma confusão. O Marcus Vinícius iniciou explicando o que seria “sublimação” para Freud: seria a “saída” da energia sexual reprimida por outros meios que não a sexualidade; basicamente cultura e civilização. Para Freud, então, a sublimação seria necessária para que haja cultura e civilização – a repressão sexual é fundamental, dentro dessa perspectiva, para a construção da sociedade tal qual a conhecemos. Para Reich, no entanto, não pode haver sublimação da genitalidade; só existe sublimação possível dos elementos pré-genitais; para ele, isso não seria, portanto, sublimação, mas formação reativa – o exemplo dado foi de uma pessoa que na infância teve uma fixação pelas fezes e acaba virando um escultor de argila (a comparação feita com gestos foi entre as fezes e a argila), cria arte e cultura. Para Reich, pode-se diferir o escultor “genuíno” daquele que se torna escultor por uma formação reativa; o “genuíno”, mesmo que ame, se entregue e viva as relações profunda e intensamente continuará a ser escultor; aquele que o faz por formação reativa, ao se tornar capaz de amar, de se entregar e de viver com profundidade e intensidade as suas relações deixará de esculpir. Nesse momento ele foi lembrado pela turma, às gargalhadas, que a pergunta foi sobre somatização; nisso ele ri e diz “isso é tão mais simples”: a ideia de somatização é a de que algo produzido na psique passa para o soma, para o corpo; ela seria uma metáfora que a mente faz acontecer no corpo. Para Reich, não há cisão entre corpo e mente, então não há metáfora. Para Freud, pode-se dizer que uma dor no peito é decorrência da angústia; para Reich, a dor no peito é a própria angústia – por isso que se pode trabalhar corporalmente a angústia; não porque esse trabalho no corpo vai ter um efeito na mente, mas porque a dor no peito é a própria angústia então trabalhá-la é diretamente trabalhar a angústia.

  Abaixo, a reprodução do texto utilizado nas duas aulas:

3 – Obsessivo-compulsivo

Características Psicorporais

  Possui erotismo anal. Carrega um sentido de ordem pedante (vaidoso, pretensioso), padrão irrevogável e preconcebido. Apresenta pouca espontaneidade e criatividade, pensamento minucioso e repetitivo. As questões e assuntos periféricos ganham o mesmo espaço que os centrais (a atenção é uniforme). É rígido, crítico, avaro, organizado e preocupado com limpeza. Se o compulsivo não tiver desenvolvido as mencionadas formações reativas, ele pode expressar padrões opostos: desleixo e incapacidade de poupar dinheiro. Os compulsivos são colecionadores. Quando a fonte são os impulsos sádicos, surgem a hostilidade e a agressão. Também podem apresentar sentimentos de culpa e piedade, indecisão, dúvida, desconfiança, reserva, autodomínio e, de um modo geral, não se deixam tocar por afetos. São metódicos. Evitam o término de relações (incluindo a analítica). É um tipo de caráter extremamente defendido. Possui inflexibilidade crônica. É determinado e, muitas vezes, teimoso. É predominantemente inibido, com tendência à prudência contemporizadora, que acomoda. É excessivamente escrupuloso (zeloso, cuidadoso). Fica preso a ideias e imagens que têm pouca importância objetiva, rumina (nível obsessivo) e age de maneira automática, roteineira e impositiva a si mesmo (nível compulsivo).

Etiologia

A fixação na fase anal sádica é a fonte de impulsos sádicos (aspecto sádico). O controle dos esfíncteres, provavelmente, ocorreu prematuramente e levou o indivíduo a um exagerado autocontrole e a tentativa de controlar os outros e o que ocorre em seu meio ambiente (aspecto relativo ao controle – retenção e soltura). O erotismo anal promove um caráter minucioso, avaro e pouco criativo. Os meninos de estrutura compulsiva sacrificam seus impulsos genitais infantis diante da angústia de castração. Nos compulsivos, a repressão da genitalidade infantil leva a uma regressão à fase anal (interesse pelas fezes e comportamentos agressivos).

Dinâmica Interna

Qualquer mudança nos padrões rígidos causa angústia. O erotismo anal está associado a comportamentos de contenção e precaução. Controle, dúvida e desconfiança caminham juntos, porque os compulsivos têm medo de soltar as rédeas e perder o controle. São bloqueados afetivamente. Contudo, com o bloqueio dos afetos há um sentimento de desolação interior e um desejo de começar uma “vida nova”. O mecanismo principal de defesa obsessivo-compulsiva é separar os afetos das ideias. O bloqueio dos afetos é uma enorme contração (rigidificação) do ego. Com ela o corpo também se encouraça, principalmente, a pelve, os ombros e a face (fisionomia dura, quase uma máscara). Esta hipertonia crônica faz do compulsivo um ser com pouca aptidão física. Por outro lado, são propícios a atividades físicas que exijam disciplina e repetição. O compulsivo emprega o afastamento dos afetos e o sadismo para se defender de sua analidade (fixação anal). O compulsivo é constituído de dois tipos de sadismo – o anal (camada mais superficial no caráter), cujo objetivo é bater, esmagar, pisar, e o fálico (camada mais profunda do caráter), cujo objetivo é espetar, furar, violar. Quando se chega conscientemente a esta camada mais profunda, ou seja, sádico-fálica, passa-se a vislumbrar a angústia de castração afetiva (corte dos afetos) e a compreender os recalques genitais.

Projeto Terapêutico

Os traços do obsessivo-compulsivo atuam como resistência na análise e só podem ser eliminados após o desbloqueio dos afetos (religação dos afetos, antes castrados). Há duas camadas de recalque no compulsivo: anal-sádica (mais superficial) e fálico-sádica (mais profunda). Estas camadas escondem os reais recalques genitais infantis. Portanto, na terapia do compulsivo, a ordem deve ser desobstruir primeiro a anal-sádica, depois a fálico-sádica e só então trabalhar sua genitalidade recalcada. A ambivalência do compulsivo diz respeito, numa camada mais profunda, a uma dupla ocorrência: empenho libidinal e agressivo, e o medo de punição por isto. Se a análise ocorrer como deve, a agressão passará ao primeiro plano (consciência) e abrirá caminho para os empenhos libidinais. O melhor jeito para separar os impulsos ambivalentes (libidinais e agressivos de um lado, e medo de punição de outro) é desde cedo, na terapia, trabalhar a desconfiança no paciente.

4 – Masoquista

Características Psicorporais

Possui erotismo anal com exigências orais. Medo de morrer ou estourar. Sentimento de sofrimento; tendência para queixar-se constantemente, infligir dor a si próprio ou de se auto-depreciar; paixão por atormentar os outros e isto faz com que o próprio masoquista sofra; descoordenação motora (falta de graça e jeito corporais). O masoquista apresenta ainda sensações de aperto e constrangimento internos, atitude espástica; inibe toda sensação forte de prazer intenso e transforma-a em desprazer; miséria (indignidade) emocional; sordidez; desapontamento por qualquer coisa; oscila entre rápidas tentativas de estabelecer contato genital e rápidas fugas para o masoquismo e angústia de castração (responsável por esta oscilação); sensação de despedaçamento e fragilidade interiores; no homens, é comum acharem seu pênis pequenos e não rivalizarem com outros homens (simbolicamente, é uma tentativa para diminuir o medo da castração por parte do pai quando eram crianças). A insegurança e o jeito desastrado remontam à frustração abrupta dos impulsos exibicionistas. O masoquista não tolera elogios e tende para a auto-depreciação e a auto-humilhação; não assume liderança, mas tem fantasia de heroísmo. Sente-se estúpido (burro) e age como se fosse. Se, por acaso, se sobressai isto lhe causa angústia. Assim, se humilha para evitar a angústia. Não declara seu amor porque acha que o outro vai humilhá-lo, vai zombar dele. É burocrático, afetado e artificial. Possui medo de ser desapontado ou rejeitado. Diz-se infeliz.

Etiologia

  A introdução à fase genital na infância (fálica) através do exibicionismo do pênis e sua imediata frustração, recalque deste prazer e completa inibição do desenvolvimento genital posterior, é típica no homem masoquista. Dessa maneira, fixa-se na fase anal com exigências orais permanentes. A analidade representa a entrega feminina ao pai. É marcada por sentimentos de vazio, impotência e culpa. O caráter masoquista forma seu caráter como uma tentativa malograda de se livrar da angústia e do desprazer. Há uma frustração inicial em função de algum objeto externo e assim a raiva, os sentimentos destrutivos advindos desta condição são dirigidos para o mundo externo, mas diante de nova frustração (impedimento de externalização da raiva), os sentimentos destrutivos voltam-se contra o próprio indivíduo.

Dinâmica Interna

A vontade de apanhar, ter sua pele arranhada ou machucada simboliza, de modo distorcido, o alivio da tensão interna. Nesta busca inadequada de prazer, a tensão é também aliviada e torna a periferia do corpo mais quente. Isto vai ao encontro da necessidade de calor maternal. O medo do orgasmo, da entrega, do envolvimento afetivo profundo é representado pelo medo de morrer ou estourar. A compulsão à repetição não serve à pulsão de morte, como acreditava Freud, mas é resultado do fato de que a pulsão luta pelo seu estado de repouso (prazer é igual a alívio de tensão) e para re-experimentar prazeres desfrutados anteriormente. A repetição neurótica é um modo distorcido de buscar o prazer. O masoquista, com seus eternos reclamos, produz muito desprazer a si e ao seu entorno. As lamúrias e queixas representam o jeito de o masoquista pedir amor. No masoquista, queixar-se representa uma exigência de amot; provocar, uma tentativa de fazer amor. O masoquista sofre de tensão interna contínua e predisposição para a angústia, provocando e desafiando seu objeto de amor. Esta exigência de amor se baseia no medo de ser abandonado. O masoquista não suporta a ideia de ser abandonado. Entretanto, muitos masoquistas vivem só. Primeiro porque é difícil a convivência com um masoquista, segundo porque este comportamento representa a ideia: “veja como sou infeliz, só e abandonado”. O outro é considerado por ele como seu protetor. Ser abandonado significa “ter frio e ficar desprotegido”. Sob o ponto de vista orgonômico o campo energético da mãe, ou o de seu substituto, organiza o campo do filho (do paciente). O masoquista percebe-se muito frágil, daí o apego excessivo à mãe ou ao seu substituto.

Projeto Terapêutico

  O terapeuta pode, por exemplo, imitar o modo de queixar-se do paciente e incentivá-lo a liberar os movimentos ocultados pelas lamúrias. A meta, com esta ação, é flexibilizar as defesas do indivíduo. As reclamações são formas inadequadas de o paciente solicitar amor. Há que se eliminar a impotência para que o conflito genital (frustração abrupta do exibicionismo genital) apareça, seguido do redirecionamento da agressividade para o mundo. Ainda sim, mesmo que o masoquista volte a sentir desejos genitais, basta, às vezes, em uma única vez, sentir desprazer para que ele volte a sua sordidez (indignidade, miséria emocional) anal e sadomasoquista. Somente a entrega genital, o pleno exercício da potência orgástica, pode eliminar o desprazer e a angústia. Para tal, é necessário a liberação das fixações pré-genitais e a eliminação da angústia genital. Desse modo, há a dissolução analítica da atitude espástica anal e genital e a instauração do primado da genitalidade.

5 – Passivo-feminino

Características Psicorporais

  Possui erotismo anal-passivo (submisso). Este caráter só ocorre em homens. Características manifestas: passivo, retraído, modesto, educado, cordato, fraco, suave e delicado. Difere-se do homem histérico porque em um nível mais profundo é tenaz, teimoso, despeitado (magoado com raiva – ressentido), manhoso, prenhe de desprezo e vícios, raivoso. O caráter passivo-feminino possui ainda mais modos gentis, comedidos, polidos com tendência a enganar, submissos, voz suave e de tonalidade feminina, expressão facial também suave e plástica.

Etiologia

  O caráter passivo-feminino atinge a fase fálica, mas a mãe o detém de modo brutal. Retoma a analidade, quando era fonte de interesse por sua mãe, identifica-se com ela no nível anal erótico. Assim, se defende das características fálicas que lhe causaram sofrimento. Evita o perigo da castração por meio da pura, crua entrega anal. Se o pai foi severo, há uma identificação paterna no superego. O indivíduo terá um superego excessivamente crítico superposto a uma estrutura passivo-feminina. O resultado é um sentimento de inferioridade com características passivo-femininas. A raiva reprimida o faz uma víbora em uma camada mais profunda da psique, ou seja, guarda muito veneno. Diferentemente do caráter masoquista, ao invés de empregar fantasias masoquistas (espancamento e autoflagelo) como modo passivo de entrega anal, o passivo-feminino desvia-se da castração pela entrega anal direta.

Dinâmica Interna

Este caráter atua na busca de satisfação anal através de um objeto. Com a entrega anal-passiva, ele evita a sua agressão e impulsos genitais. A raiva severamente reprimida é encoberta pela necessidade de concordar. Embora cordato, não consegue entregar-se e, inconscientemente, odeia as mulheres. A homossexualidade se expressa pela felação e pela relação sexual anal. A identificação com a mãe na fase anal o faz se sentir atraído por homens e, na relação sexual com estes, aceita o papel passivo. Se o pai foi muito severo, sente-se inferior e com medo de ser castrado. Assim, para se defender torna-se educado, servil. Na relação sexual, se oferece a homens fortes para aplacar a raiva do pai por quem teme ser castrado.

Projeto Terapêutico

  O terapeuta deve mobilizar a raiva anal sádica e facilitar a manifestação da agressão que estão sob a camada de cooperação e docilidade. A partir daí o indivíduo pode retornar à fase fálica (da qual foi forçado a abandonar anteriormente), e seguir rumo à genitalidade. O terapeuta deve estar atento à resistência latente de o ego não participar efetivamente da terapia (passividade) e ao fato de isto ser disfarçado por uma exagerada transferência positiva mais superficial.

6 – Narcisista-oral

Características Psicorporais

  Possui um erotismo oral. É dependente e infantil. Falta de motivação, incapacidade de esforço continuado, modo de vida aquém da sua potência. Há os dependentes reprimidos e os dependentes insatisfeitos. O dependente reprimido é destituído de energia, come mal e a comida não lhe apetece. É quieto, lacônico, fala em tom baixo, é cáustico e mordaz. Morde os lábios, engole, com frequência, emoções difíceis e é propenso ao mau humor. É ressentido. Recua com facilidade para dentro de si e se magoa por nada. Precisa de elogios e encorajamentos constantes. Espera ser compreendido e amado sem esforço de sua parte. Queixa-se continuamente da falta de amor e compreensão. Luta por objetivos inexequíveis. Acha que o mundo o trata mal. Não tem amigos e tem pouco a oferecer. Quer que os outros cuidem dele, como bebês no estágio oral. O ego é fraco e, para compensar, tem ideias de grandeza (narcisismo infantil). Contenta-se com uma existência marginal e aguardam um grande êxito no campo profissional de sua predileção. Muitas vezes, tem dificuldade de permanecer nos empregos, pois valorizam exessivamente as supostas imperfeições dos mesmos. Tem uma teimosia passiva. É imóvel, gruda nas pessoas. Espera ser sustentado por alguém mais ambicioso. É depressivo, melancólico. O dependente insatisfeito é mais modificável do que o dependente reprimido. É passível a fases de arrogância, excitação, euforia, altivez, excessos alimentares, de bebidas alcoólicas e drogas. É inadequado e tímido diante do sexo oposto. Excesso de manifestações sexuais orais. Gosta de falar. O corpo do narcisista tende a ser alto, magro, astênico. Simbolicamente está “acima da terra”, falta-lhe enraizamento, ou então o sujeito é gordinho como uma representação de quando se é bebê.

Etiologia

  O narcisista, tanto o reprimido como o insatisfeito, alcança a fase fálica, mas substitui o falo pelo seio, voltando-se para uma fixação oral, resultante de identificação com a mãe. Troca a vingança fálica por tendência a sugar. O alcoólico, por exemplo, substitui o seio pela garrafa. Este recuo à fase oral se dá por causa do gancho mal elaborado aí existente – o paciente, ainda bebê, vive privações fortes de afeto. O paciente narcisista é como um saco vazio de afeto a solicitar ao mundo que seja preenchido, sem qualquer esforço de sua parte. Assim, diante da frustração edípica, o indivíduo retorna ao estágio oral.

Dinâmica interna

  Os narcisistas infantis são tão emocionalmente carentes que se recusam a buscar o outro, querem ser constantemente atendidos. São tão fracos egoicamente que não conseguem dizer ao outro o que querem. Esperam que o outro perceba o que necessitam. Guardam em si mesmos um deserto emocional. São extremamente apegados ao outro. Reclamam da vida, do mundo, que não são amados. Sentem-se vítimas constantes de circunstâncias. São muito inibidos por causa da repressão ou muito queixosos. Neste último caso, agem como se a vida lhes fosse devedora. Têm uma insatisfação permanente em função de um buraco afetivo que não tem fundo. Nada lhes contenta. Quando isto ocorre, é somente por pouco tempo. Quando se encaminham para uma relação com o outro já o fazem com um sentimento interno de privação, de desamparo. Os narcisistas, ao portarem sentimentos de solidão, vazio e desapontamento, buscam elogios e atenção das pessoas. Tal fato representa simbolicamente a necessidade de serem “alimentados narcisicamente”. Dado que os outros nunca são suficientemente bons para eles, os narcisistas desenvolvem sentimentos de rejeição, ressentimento e hostilidade. Têm um profundo medo de perder o objeto amado, daí a depressão oculta em toda e qualquer relação amorosa. Há uma incapacidade para serem independentes.

Projeto Terapêutico

  O caráter narcisista infantil recusa-se a admitir melhoras na terapia. Precisa muito de encorajamento, de entrar em contato com sua real potência e abrir mão de objetivos inalcançáveis. Assim, sua energia deve ser aumentada. É necessário que passo a passo, o paciente vá aceitando a realidade que tanto reluta em assimilar – a luta pela vida. Na terapia busca apoio, sustentação, segurança. Ao mesmo tempo em que o terapeuta deve acolhê-lo em suas carências, o mesmo deve favorecer no paciente o caminho da autonomia. O narcisista tem um organismo energeticamente sub-carregado e precisa aprender a manejar um aumento de carga necessário à descarga genital.

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